Uma cuia baiana e reencontros em Feira de Santana
- Malone Rodrigues

- há 9 minutos
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Cheguei na terça feira em Salvador. De lá, parti de carona com uma “conhecida”. Já nos conhecíamos de reuniões online e de muitas mensagens, mas aquela era a primeira vez que nos encontrávamos presencialmente. Há pesquisas recentes que usam a expressão “intimidade telepresente” para falar dessas relações que se constroem à distância, mediadas pela tecnologia, antes mesmo de um encontro presencial.
Nos encontramos no ponto combinado. Embora talvez nem precisasse, nos apresentamos. E, do jeitinho brasileiro, trocamos um abraço de verdade. Acho que aquela confiança, tão natural entre duas pessoas que nunca tinham se encontrado, tinha alguma relação com o que nos levava até ali. Estávamos a caminho do XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial.
Para Frankl, a existência humana carrega sempre a possibilidade do encontro. O ser humano não está fechado em si mesmo.
Para Frankl, a existência humana carrega sempre a possibilidade do encontro. O ser humano não está fechado em si mesmo. Ele pode se abrir para o mundo, para uma tarefa, para um sentido e, especialmente, para outra pessoa. Frankl chama essa característica de autotranscendência da existência humana. É a capacidade de dirigir se para algo ou alguém além de si próprio.
Limerci e eu seguimos para o interior da Bahia. Nosso destino era Feira de Santana, apresentada pelo professor Vinicius Bastos como o “Portal do Sertão”. O congresso foi maravilhoso. Uma organização impecável. Professores, estudantes e egressos trabalharam com muito cuidado para que tudo acontecesse. Mas havia algo que não estava na programação do evento. Uma energia que parecia contagiar todo mundo. O desejo de aprender, aprofundar e ampliar os estudos sobre a Logoterapia.
Conheci o pensamento de Viktor Frankl quando ainda cursava Filosofia, por meio do professor Luciano Marques de Jesus, que depois foi meu orientador e que hoje tenho a alegria de chamar de amigo. Atualmente, aprofundo meus estudos com o professor Paulo Kroeff, com quem tenho a alegria de trabalhar no grupo de pais enlutados da Fundação Thiago Gonzaga. Durante o congresso, pude participar de seu curso e acompanhar suas palestras. Olhava ao redor e via tantas pessoas interessadas em escutá lo, aprender e fazer perguntas. Enquanto eu o escutava, tomando meu mate, pensei na sorte que tenho. Toda semana posso aprender com ele. No trabalho, no grupo de estudos, nas conversas. Às vezes nos acostumamos com as pessoas que estão perto e esquecemos do privilégio que é poder aprender com elas.
Às vezes nos acostumamos com as pessoas que estão perto e esquecemos do privilégio que é poder aprender com elas.
Aliás, sorte foi uma palavra que me acompanhou nesses dias. Imaginem a cena. Chego ao congresso, abro meu kit de chimarrão e percebo que esqueci a cuia em casa. Ela tinha ficado na pia, secando. Tentei improvisar com um copo. Não deu certo. E agora? Eu estava na Bahia de Todos os Santos. Talvez fosse o momento de pedir a intercessão de Nossa Senhora do Chimarrão. Porque, convenhamos, como fica um gaúcho sem seu mate? A prece foi escutada. Um “conhecido” conseguiu uma cuia para mim. Pronto. O equilíbrio do universo estava restabelecido. Agora tenho uma cuia baiana. Mas termino esta crônica lembrando de outro amigo. Um amigo que já não está entre nós.

Rafa esteve no meu aniversário. Quando contei que iria para Feira de Santana, ele abriu um sorriso e disse que aquela era sua cidade natal. Falou que depois me mandaria um áudio com algumas dicas. Lembro de um dia em que ele apareceu no escritório. Eu estava tomando chimarrão e ofereci um mate. Ele aceitou. “Tchê, tu toma mate?” Tomava. Era o baiano mais gaúcho que conheci.
Rafa era daqueles que estavam sempre prontos para ajudar. Alegre, tranquilo, com um jeito leve de estar no mundo. Estudava Ciências Aeronáuticas na PUCRS. Gostava de aviões. Gostava do céu. Sonhava em voar. Ele me mandou o áudio sobre Feira de Santana. Deixei para escutar mais perto da viagem. Uma doença fulminante o levou antes disso. Tínhamos combinado um chimarrão na orla para a semana seguinte. Um mate que nunca aconteceu.
Quando cheguei em Feira de Santana, lembrei daquele áudio. Coloquei os fones e escutei. O coração apertou. Depois caminhei pela cidade. Enquanto seguia em direção à universidade, comecei a imaginar os caminhos dele por ali. Será que ele passou por esta rua? Será que conhecia aquele lugar? Quando passei em frente a uma escola, pensei se ele poderia ter estudado ali. Era uma forma estranha de procurar alguém que eu sabia que não encontraria. No Dia do Psicólogo, recebi uma mensagem da mãe dele. Naquele dia, preparei meu mate e subi até a parte mais alta do hotel. Sentei perto da piscina e fiquei ali, cevando o chimarrão. O céu estava de um azul lindo. E eu sabia o quanto o Rafa amava o céu.
Este foi o meu segundo congresso de Logoterapia. Encontrar pesquisadores, professores, psicólogos e estudantes com tanta vontade de aprender me fez lembrar do começo da própria história de Frankl. Ainda jovem, ele se dedicou a ajudar outros jovens que sofriam com a falta de perspectivas diante da vida. Talvez tenha sido justamente isso que primeiro me aproximou da Logoterapia.
A possibilidade de ajudar alguém a encontrar um sentido. Em Feira de Santana encontrei muitas pessoas. Algumas eu conhecia apenas pelas telas. Outras eu reencontrei depois de muito tempo. Mas tive a estranha e bonita sensação de reencontrar também o Rafa. Não pelas ruas. No céu azul daquela cidade. Não pude mandar mensagem para ele dizendo que havia chegado bem. Então digo por aqui.
Maninho, deu tudo certo com a viagem. Conheci tua cidade. E ainda voltei com uma cuia baiana. Um dia a gente ainda vai matear junto. Até lá, cada vez que eu cevar um mate nessa cuia, vou lembrar de você.



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