Quem pode falar da morte?
- Malone Rodrigues

- há 1 hora
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Quem pode falar da morte? Ou não se pode falar da morte? A segunda pergunta, pelo menos, parece ser a bandeira de alguns haters do cantor Jão.
No fim de julho, ele lançou o álbum Memórias Póstumas. O trabalho veio depois de mais de um ano de pausa na carreira. Nesse período, Jão teve algumas perdas. Primeiro, a morte da avó. Depois, no meio do caminho, a morte do pai. Parte dessas experiências acabou encontrando espaço nas letras do novo álbum, que fala sobre luto, finitude, memória e até espiritualidade.
Eu pesquiso a finitude e já era fã do Jão, então acompanhei o lançamento com certa curiosidade. Li entrevistas, ouvi as músicas e, como sempre faço, fui olhar os comentários. Um deles me chamou atenção. A pessoa dizia que a morte não deveria ser usada para fazer canções. Confesso que quase cliquei no perfil para descobrir se estava diante de uma especialista em saúde mental, uma pesquisadora em tanatologia ou alguém que tivesse dedicado alguns anos ao estudo do luto. Mas não precisei. Alguém que faz um comentário desses tem a profundidade de um pires.
Usar a arte para elaborar uma perda não é novidade. Muito antes de Jão, pessoas já pintavam, escreviam poemas, compunham músicas e esculpiam a própria saudade. Uma parte considerável da história da arte nasceu justamente desse encontro entre o ser humano e aquilo que ele não conseguia explicar de outro jeito. E aqui talvez seja importante entender o que significa elaborar um luto.
Elaborar não é esquecer. Não é superar alguém como quem supera uma fase difícil da vida. Muito menos deixar de sentir saudade. Elaborar um luto é, aos poucos, conseguir integrar aquela perda à própria história. É reconhecer que algo mudou definitivamente e aprender a viver dentro dessa nova realidade. O vínculo com quem morreu não precisa desaparecer. Ele pode mudar de lugar. Passa a existir nas lembranças, nos afetos, nos valores, nos gestos e nas marcas que aquela pessoa deixou. Talvez elaborar o luto seja justamente isso. Encontrar uma maneira possível de continuar vivendo sem precisar apagar quem partiu.
Sou voluntário em um grupo de apoio a pais que perderam seus filhos. Vira e mexe, durante nossos encontros, alguém comenta que antes da perda praticamente nunca pensava sobre a morte. E faz sentido. Na real, ninguém quer pensar muito nisso. Embora seja uma das poucas certezas da nossa existência.
Vivemos numa cultura que tenta afastar a morte do campo de visão. Falamos de juventude, longevidade, produtividade, saúde e felicidade. Nada disso é um problema. O problema talvez esteja no excesso, na tentativa de viver como se a finitude fosse um acidente reservado aos outros.
Por muito tempo eu também tive dificuldade de olhar para ela. Lembro de quando encontrei um trecho do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis. Quase no final, Francisco escreve; “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, da qual homem algum pode escapar.” Achei horrível. Como alguém poderia chamar a morte de irmã? Com o tempo, comecei a entender de outro jeito. Francisco havia vivido intensamente aquilo em que acreditava. Tinha amado, escolhido, renunciado, criado vínculos, errado, acertado e dado sentido à própria existência. Talvez por isso pudesse olhar para a morte não apenas como inimiga, mas como parte da condição humana.
Não significa desejar morrer. Significa saber que se vai morrer.
Não significa desejar morrer. Significa saber que se vai morrer. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Aqui, para mim, aparecem dois movimentos. Um é falar sobre a morte. O outro é perceber o que acontece conosco quando tomamos consciência da própria finitude.
Existem hoje iniciativas de educação para a morte, estudos sobre finitude e espaços criados justamente para ajudar pessoas a falar sobre o tema. Alguns surgem no contexto de doenças graves e do envelhecimento. Outros simplesmente partem da ideia de que pensar sobre a morte pode nos ensinar alguma coisa sobre a vida.
Gosto de imaginar isso como uma viagem de trem. Você está vivendo um encontro muito bom, mas sabe que o último trem parte em algumas horas. Conforme o horário se aproxima, algo muda. Você presta mais atenção na conversa. Talvez guarde o celular. Pede mais um café. Escuta melhor. Abraça com mais presença. O encontro não perdeu o valor porque vai terminar. Talvez tenha ganhado valor justamente porque você sabe que ele termina.
A consciência da finitude pode produzir algo parecido. Ela nos coloca diante do tempo não apenas como Chronos, aquele que passa no relógio, mas como Kairós, o tempo vivido, percebido e preenchido de sentido. Por isso, se pudesse conversar com aquele perfil que escreveu que não deveríamos falar sobre a morte, talvez eu dissesse justamente o contrário. Precisamos falar. Com cuidado. Com respeito. Com responsabilidade. E a arte sempre foi um dos lugares onde conseguimos fazer isso.
Nesse sentido, o trabalho de Jão presta um serviço para todos nós. Ele colocou a morte na conversa. Fez pessoas ouvirem músicas sobre ausência, memória e finitude. E, nos próprios comentários que li, encontrei gente falando sobre os pais, os avós, a saudade e a própria vida. Talvez seja isso que a boa arte faça. Ela não resolve a morte. Mas nos ajuda a encontrar palavras diante dela. E, quem sabe, ao falar um pouco mais sobre a morte, a gente aprenda alguma coisa sobre como deseja viver. Sêneca escreveu em Sobre a brevidade da vida que não é que tenhamos pouco tempo. Nós desperdiçamos muito do que temos. No fim das contas, talvez falar sobre a finitude nunca tenha sido apenas sobre morrer. Talvez sempre tenha sido sobre viver.



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