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Eu vim para o Café da Morte!

23 de ago.
5 min de leitura

Enquanto dirigia, eu pensava em como faria quando chegasse lá. “Oi, eu vim para o Café da Morte?” Não. “Eu vim para o café que conversa sobre a morte?” Também não. Talvez fosse melhor dizer que eu tinha ido para o encontro do grupo que fala sobre finitude. Já fazia alguns meses que eu queria participar do Death Café Porto Alegre. Conheci o projeto enquanto pesquisava sobre educação para a finitude e, desde então, fiquei curioso.


O Death Café é uma espécie de franquia social. Pessoas, muitas vezes desconhecidas, se encontram para comer bolo, beber café e conversar sobre a morte. O objetivo é bastante simples, embora bem complexo. No perfil do Instagram @deathcafeportoalegre, na bio eles se apresentam com o objetivo:  Aumentar a consciência sobre a morte para ajudar as pessoas a aproveitarem melhor suas vidas finitas. O movimento nasceu a partir do trabalho do britânico Jon Underwood, inspirado nas ideias do sociólogo suíço Bernard Crettaz. O primeiro encontro aconteceu em Londres, em 2011, na casa de Jon, conduzido por sua mãe, Sue Barsky Reid. Em Porto Alegre, os encontros acontecem desde 2017.


Cheguei à cafeteria e, para minha sorte, não precisei decidir qual das minhas frases usaria. A moça que me atendeu perguntou “Você veio para o encontro?” “Sim.” Primeiro desafio vencido. Eu não estava nervoso para conversar sobre a finitude. Afinal, esse é um dos meus temas de pesquisa. Leio sobre morte, luto e finitude quase todos os dias. O que me deixava inquieto era outra coisa. Eu não sabia quem encontraria naquele encontro nem o que me esperava. A divulgação dizia que o encontro começaria às 15h. Cheguei um pouco antes, só que sofri para estacionar. Quando entrei, quase todo mundo já estava lá. Talvez a pontualidade seja um pressuposto do Death Cafe. Será que é uma herança do fundador britânico? Ou o pessoal entende que o tempo não pode ser desperdiçado?


Aumentar a consciência sobre a morte para ajudar as pessoas a aproveitarem melhor suas vidas finitas

No fundo da cafeteria havia uma mesa enorme com umas dezenove pessoas. Fui acolhido por Natalia Frizzo, psicóloga, e Cristiane Moro, fisioterapeuta e doula da morte, que conduzem os encontros em Porto Alegre. A acolhida foi tão afetuosa. Trocamos logo de início um abraço daqueles de verdade. Sabe? Aqueles forte, com carinho misturado com saudade. Não aqueles protocolares. Sei que pode parecer pouca coisa, mas nós, sulistas, nem sempre distribuímos abraços assim, logo de saída. Às vezes o abraço exige algum tempo para cativar e ser cativado. Ali, não. Será que é a conciência que não sabemos quando é o último abraço?


A mesa já estava lotada. Natalia puxou uma cadeira, procurou um espacinho e disse; “Aqui é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um.” E coube. Sentei. Sobre a mesa havia livros sobre morte, luto e finitude. Entre eles, algumas calaveras do Día de Muertos, aquelas caveiras mexicanas coloridas e ornamentadas que, naquele contexto, pareciam observar silenciosamente nossa conversa.

Calaveras do Día de Muertos, aquelas caveiras mexicanas coloridas e ornamentadas
Calaveras do Día de Muertos, aquelas caveiras mexicanas coloridas e ornamentadas

Eu não era o único novato. Depois da acolhida inicial, fomos convidados a nos apresentar. Éramos uns seis participando pela primeira vez. Havia psicólogas, professores, pessoas interessadas no tema e outras que estavam atravessando o luto pela morte de familiares ou de seus animais. Depois disso, a conversa simplesmente aconteceu. Sem palestra. Sem alguém tentando ensinar como devemos pensar a morte. Sem respostas prontas. As pessoas falavam. E as outras escutavam. Em alguns momentos peguei o celular para anotar frases que não queria esquecer. Tudo acontecia de um jeito curioso. Enquanto falávamos de morte, câncer, perdas, filhos, animais, medo e saudade, chegavam cafés, chás e bolinhos à mesa. E o clima não pesava. Não porque os assuntos fossem leves. Alguns estavam muito longe disso. Mas talvez porque ninguém estivesse tentando fugir deles. Em determinado momento, uma mulher que estava se recuperando de um câncer falou sobre sua experiência e disse; “Eu tenho medo de morrer.” Aquilo me deu um frio na barriga. Eu pesquiso a morte. Estudo a finitude. Leio sobre isso. Mas acho que também tenho medo de morrer. Enquanto anotava aquela frase, pensei no que eu faço com esse medo. A resposta que encontrei naquele momento foi simples. Eu vou encará lo vivendo.


Mais tarde, outra participante falou sobre a dor pela morte de seu gatinho. Li textos sobre o luto de animais e como como precisamos compreender esse vínculo também na prática clínica. Mas ali não havia artigo científico. Havia alguém sentindo saudade. E enquanto ela falava, pensei na Parafina e no Antuan, meus gatinhos. Sei que um dia chegará a hora deles. Só de escrever isso já me da um nó na garganta. Confesso, que quando cheguei em casa, fiz questão de brincar um pouco mais com os dois. Temos aquilo que chamo de “hora da bagunça”. Geralmente termino com algumas evidências nas mãos, mordidas e arranhões.

Também ouvi pais que perderam um filho e transformaram parte de sua dor em trabalho voluntário. Falamos sobre lutos que não encontram espaço para existir. Sobre perdas reconhecidas e outras quase proibidas. Havia muito mais naquela mesa. Muito mais do que caberia nesta crônica. Eu já estava terminando meu café quando Cristiane lançou uma pergunta para o grupo. “Vocês já pensaram no que gostariam que estivesse escrito na lápide de vocês?” O café parou. Literalmente. Eu estava tomando um gole. Trancou na minha garganta. Respirei, olhei discretamente para os lados e, aparentemente, ninguém percebeu meu quase afogamento por cafeína em pleno Café da Morte. Mas a pergunta ficou ecoando na minha mente.


“Vocês já pensaram no que gostariam que estivesse escrito na lápide de vocês?”

O que eu gostaria que estivesse escrito na minha lápide? Ou, talvez mais inquietante, o que minha família escolheria escrever? Uma senhora respondeu; “Ela viveu.” Outra pessoa falou; “Ele foi encontrar seu filho.” E então Cristiane contou que, em outro encontro, havia feito a mesma pergunta. Um senhor, bastante espiritualizado, respondeu que gostaria de colocar na lápide; “Aqui jazem os meus ossos, mas queria que fossem os vossos.” A mesa inteira caiu na gargalhada. Num café sobre a morte, a morte virou motivo de riso.


Alguns dizem que falar atrai. Será? Porque falar da finitude não significa ficar sentado esperando a morte chegar. Ao contrário. Tomar consciência de que vamos morrer pode nos devolver à vida. Quando percebemos que nosso tempo é limitado, algumas coisas começam a perder importância. Outras ganham um valor imenso. Um café. Uma conversa. Um abraço recebido de alguém que acabamos de conhecer. Uma tarde com pessoas desconhecidas. A hora da bagunça com dois gatinhos. A possibilidade de dizer que amamos alguém enquanto ainda podemos dizer. O encontro chegou ao fim depois de uma hora e meia que pareceu muito menor. Talvez Cronos seja mesmo implacável. Ele não para porque estamos felizes. Não diminui o passo quando estamos distraídos. Não espera resolvermos nossas pendências para continuar andando. O tempo passa. E talvez não possamos fazer muita coisa contra isso. Mas podemos decidir o que fazemos enquanto ele passa.


Saí do Café da Morte pensando menos sobre como eu gostaria que fosse a minha lápide e mais sobre a vida que existirá antes dela. Em setembro tem outro encontro. Desta vez, quando eu chegar à cafeteria, acho que já sei o que dizer. “Buenas, eu vim para o Café da Morte.”

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