O que é o tempo?
- malonerodrigues3
- 17 de jul. de 2022
- 3 min de leitura
Visitando o cemitério La Recoleta em Buenos Aires

Lembro-me que foi o tema da minha primeira aula do curso de filosofia com o Prof. Leonardo Agostini. Eu, um jovem universitário discutindo e refletimos sobre a complexidade do tempo... talvez olhando para trás vejo que estava, como dizem os antigos, “mais perdido que cego em tiroteio”. Embora tenhamos embarcado na filosofia analítica, e os esforços do Profe. Léo fossem imensuráveis, consegui compreender as características do espaço e do tempo, bem como aspectos metafísicos e epistemológicos acerca do tema... No final da graduação fiquei no dilema entre os dois temas. O primeiro era sobre o sentido da/na vida em Viktor E. Frankl, o segundo era sobre o problema do tempo no pensamento em Henri Bergson... Escolhi o primeiro tema, mas o segundo me acompanha no meu processo de lifelong learning.

Agora, chego na reflexão que fiz ao contemplar essa escultura, localizada no cemitério La Recoleta, inaugurada em 1822, como a primeira necrópole pública de Buenos Aires. Em hebraico seu nome é "Azrael". No Alcorão, é citado como "Malak al-Mawt". E nós podemos chamá-lo de O Anjo da morte. Na estátua eternizada em passos lentos, recordo o Tango. Na dança tipica dos argentinos, o bailarino se aproxima da dama em passos lentos e firmes. Ele quer ser visto, seus olhos são fixos no olhar da bailarina. Eis-que de frente dela, ele a pega pelos braços e justos começam uma dança vibrante e síncrona. No entanto, a chegada deste anjo é feito numa dança de passos lentos. Em uma das mãos o Anjo da morte traz a foice, a qual ceifara a alma do corpo, e na outra, traz uma ampulheta. Sim, uma ampulheta. Jovens, quando vi a ampulheta nas mãos da escultura, logo me lembrei do pensamento de Henri Bergson. Na filosofia moderna, Bergson nos ajuda a entender/pensar o tempo numa dimensão existencial, bem mais que uma dimensão teórica. De forma positiva e realista Bergson nos implica a compreender a nossa natureza efêmera. Quando temos a dignidade de entender essa transitoriedade da vida, mudamos de postura e passamos a viver com intensidade cada momento. Bergson, entende que tanto o passado como o futuro devem ser analisados a partir da ideia de presente.
Tempo, morte e presente... Em minha reflexão sou levado ao texto "Cantico delle creature", de São Francisco de Assis. Escrito no dialeto da Úmbria, acredita-se que esteja entre as primeiras obras escritas no idioma italiano. Existe um trecho deste clássico franciscano que diz; “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar...” Como pode alguém louvar a chegada da morte, e ainda chama-la de irmã? Bem, quem vive o presente, está vivendo. E assim, pode chamar a morte
de irmã. Parece confuso, não é?
Por fim, muitas pessoas estão vivendo de forma automática. Como li na porta de um banheiro de um bar: “você está construindo memórias ou apenas pagando boletos?” - jovens, o anjo da morte traz na mão o print do tempo. É como uma indagação que rompe a banalidade dos dias corriqueiros. A pergunta pulsa; e no final de tudo, como gastei o meu tempo? Acredito que não existe uma reposta. Sei que nossa vida é e será como a montanha-russa da vida, com altos e baixos... porém a música Epitáfio do grupo Titãs é como uma marca texto para os nossos dias inconstantes. “Devia ter amado mais, ter chorado mais... Ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais, e até errado mais. Ter feito o que eu queria fazer...”. "Nada é menos do que o momento presente, se entendermos por isso o indizível instante que separa o passado do futuro."
Henri Bergson
Malone Rodrigues



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