Precisamos aprender a ficar sozinhos em plena epidemia de solidão?

Eu sempre gostei de ficar sozinho, em silêncio, quietinho. Meus amigos mais próximos sabem disso. Uma vez, uma amiga me mandou uma mensagem que dizia “vamos fazer algo no fim da tarde ou você está no modo claustro?”. Claustro é um espaço dentro do convento onde monges ou freiras costumam se recolher para rezar, meditar, silenciar.
Não julguei a mensagem. Sei que, às vezes, meus amigos não entendem muito bem esse meu gosto pelo recolhimento. Em outra ocasião, quando recusei um convite, um amigo respondeu “vai, quando a tua bateria social acabar, você vai embora”.
Eu sei que habitar a própria solidão não é para todo mundo.
Em minha pesquisa sobre Logoterapia, encontrei a seguinte citação de Frankl
“Nós precisamos, na verdade, de novos tipos de tempo livre, que permitam algum espaço para contemplação e meditação. Para tal fim, o homem precisa de coragem para estar só. (1)” Na hora em que li, fiquei feliz. Me senti justificado. Contudo, algum tempo depois, enquanto lia uma notícia intitulada “O que revela a chegada da epidemia de solidão ao Brasil”, foi como colocar essas duas ideias em uma balança. Até que ponto ficar sozinho é saudável? E quando essa experiência começa a produzir sofrimento? Lá fui eu pesquisar.
Peguei o Relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, “Da solidão à conexão social, traçando um caminho para sociedades mais saudáveis” (2). O relatório é profundo e busca auxiliar governos e instituições na compreensão do problema e na construção de respostas para ele. Fiquei surpreso ao descobrir que alguns países já criaram estruturas para enfrentar a solidão dentro das políticas de saúde pública, como o Reino Unido e o Japão.
Gurizada, para esta reflexão, uma distinção me parece bem importante, se não, fundamental. Precisamos entender do que estamos falando quando usamos a palavra solidão. Só assim conseguimos compreender a experiência defendida por Frankl e aquela que a OMS e diferentes governos procuram enfrentar como um problema social e de saúde pública.
A solidão, em seu sentido negativo, é uma experiência subjetiva e indesejada de desconexão. Ela aparece quando existe uma distância entre as relações que uma pessoa gostaria de ter e aquelas que efetivamente encontra em sua vida. Pode envolver quantidade de relações, apoio recebido ou, principalmente, a qualidade desses vínculos.
Já a solitude é outra coisa. É o estado voluntário de estar só. Um tempo escolhido para descansar, desacelerar, recarregar, refletir, criar, meditar ou cultivar uma prática espiritual. Enquanto a solidão nasce da falta sentida de uma conexão desejada, a solitude nasce da escolha de estar consigo mesmo. E talvez esteja justamente aí a diferença que eu procurava.
Enquanto a solidão nasce da falta sentida de uma conexão desejada, a solitude nasce da escolha de estar consigo mesmo.
Quando Frankl fala sobre a necessidade de criarmos novas formas de viver o tempo livre e sobre a coragem necessária para estar só, ele parece falar de uma decisão. Há uma escolha em se retirar por algum tempo do ruído para encontrar silêncio, contemplação e sentido. Isso exige coragem porque ficar consigo mesmo também significa encontrar aquilo que o barulho cotidiano muitas vezes ajuda a esconder. A solidão que preocupa a OMS é diferente. É aquela que não foi escolhida. Surge quando uma pessoa deseja vínculos, presença, apoio e pertencimento, mas não os encontra. Pode ser atravessada por condições sociais, culturais, econômicas e estruturais que dificultam a construção de relações significativas. Lembrei então daquela velha ideia de que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Talvez, aqui, a diferença esteja menos na quantidade de tempo que passamos sozinhos e mais na liberdade que temos diante desse tempo.
Turma, uma coisa é escolher ficar só. Outra é não ter com quem estar.
Eu continuo gostando dos meus momentos de claustro. Continuo precisando deles. Mas agora compreendo um pouco melhor que existe uma enorme distância entre recolher-se e sentir-se abandonado pelo mundo. Ficar sozinho pode ser bom demais, desde que seja uma escolha e não uma imposição.
FRANKL, Viktor E. A vontade de sentido. Fundamentos e aplicações da logoterapia. p. 123
OMS. From loneliness to social connection.





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