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Onde a pressa te leva?

há 10 minutos
3 min de leitura

O quê? Era um carro funerário. Bah!


Tinha um treino às 16h. Se você não é de Porto Alegre, talvez não vá acreditar, mas, saindo uns 30 minutos antes, você chega com tranquilidade. Claro, vai depender se não é dia de semana, se não está chovendo, se não vai ter uma queda de luz, ventania, árvore caída ou se, por influência dos astros, você não vai parar em todas as sinaleiras. Sim, elas não são sincronizadas. Funcionam no estilo daqueles piscas-piscas de Natal. Cada uma por si. E, pasmem, se uma ponte literalmente não estiver interditada porque está dando choque nas pessoas. Caso contrário, com uma pitada de mais sorte que juízo, chegamos no horário.

Mas, naquele dia em específico, não fui pela pista da direita. Espero que você saiba que o lado direito é para aqueles que não estão com pressa.

Eu acho que tenho mais sorte. Mas, naquele dia em específico, não fui pela pista da direita. Espero que você saiba que o lado direito é para aqueles que não estão com pressa. Decidi ir pela esquerda e seguir a velocidade indicada pelas placas e pelo GPS.

Mas existem pessoas que parecem pertencer a uma categoria especial. São os chamados "motoristas de final de semana". Assim me contou, certa vez, um sábio motorista de aplicativo. Segundo ele, esses motoristas se aventuram pelas ruas nos finais de semana crentes de que só eles existem. Não respeitam muito a velocidade, muito menos a regra da pista da direita e da pista da esquerda.

Naquele dia, eu já começava a acreditar que estava predestinado a encontrar todos os motoristas de final de semana de Porto Alegre. Acelerei um pouco. Não queria chegar atrasado.

Eis que minha crença foi confirmada. Agora tinha certeza. Estava atrás de uma fila absurda de carros lentos. Quando o sinal fechou e alguns dos meus amigos lesmas ficaram para trás, achei que finalmente tinha me livrado deles. Eis que uma "Saveiro" andava ainda mais devagar. Só podia ser brincadeira.

Eu achei que era uma Saveiro. Meu tino para pedigrees de carros sempre foi péssimo. Sempre perdia no jogo do "Stop" quando chegava nessa categoria. Vou deixar uma nota caso você não saiba que jogo é.

Mas eis que li o adesivo no carro à minha frente: "Confiança, segurança e conforto no momento mais difícil. Funerária X, ao seu lado."

O quê??? Era um carro funerário. Bah! Aqueles motoristas lentos eram um cortejo fúnebre. Na hora, pensei no que eu estava fazendo. Pra que essa pressa? Também me lembrei daquilo que vivo falando para os meus pacientes sobre o que está no nosso controle e o que não está. Saí de trás do carro funerário, deixei que o cortejo seguisse seu caminho e voltei para a pista da direita. Me concentrei no caminho, não em onde eu deveria chegar.

Aprendi a ser cautelosa para que eu não me machuque.

Pelo comando de voz, pedi para o computador do carro ligar a música. O Spotify começou a tocar Because of You, da Kelly Clarkson. Em uma parte da música, ela canta "I learned to play on the safe side so I don't get hurt. (Aprendi a ser cautelosa para que eu não me machuque.)" Pensei na vida dando sinais para quem consegue prestar atenção.

Cheguei ao local com alguns minutos de atraso. Cinco minutos, para ser exato. Mas fui o primeiro a chegar. Todos estavam atrasados. Ou talvez cada um estivesse vindo no seu tempo, no seu ritmo. Enquanto esperava eles, repetia pra mim; pra que tanta pressa?

 

 

 

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